[G1] Anos 2000 – O sucesso de Pitty
sexta-feira julho 17, 2015 às 16:46 | Arquivado em: Notícias

[Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, celebrado na segunda-feira (13), o G1 preparou uma série para contar a história do estilo na Bahia. Até esta sexta-feira (17), será publicada uma reportagem por dia detalhando cada década de rock n’ roll baiano, da década de 60 até os tempos atuais.]

Com a chegada do novo milênio, a cena Rock n’ Roll de Salvador estava fervilhando. As duas principais bandas da cidade, The Dead Billies e Dr. Cascadura, tinham lançado em 1999 seus respectivos segundos discos e suas apresentações eram verdadeiros acontecimentos na capital baiana. A turma do metal também estava com força total, e bandas como Doykod e Plexus se juntaram às grandes de Salvador, que vinham de anos anteriores, como a Headhunter D.C., Malefactor, Drearylands e Veuliah.

Com mais espaço, mais facilidade de acesso a instrumentos, gravação e divulgação, e graças à internet, diversos outros grupos surgiram na primeira metade do século XXI, cobrindo diversos estilos dentro do espectro do Rock n’ Roll. Se destacaram, no princípio, as bandas The Honkers, Vinil 69, Los Canos, Capitão Parafina, dentre outras. Todas em breve lançariam seus próprios discos.

Em 2001, meses após concorrer na categoria “Melhor Democlipe”, no Prêmio Video Music Brasil da MTV, a The Dead Billies anunciou seu fim, causando espanto nos fãs de rock que acompanhavam a cena na época. De repente, outros grupos que marcaram a década anterior também já não estavam mais em cena.

“São coisas do tempo mesmo, dos ciclos da vida. Algumas [bandas] se tornaram outras coisas: o Dead Billies se fragmentou e os músicos formaram a Retrofoguetes e o Teclas Pretas; parte do pessoal da Lisergia formou a Trito; o batera deles, Duda, juntou-se a Nancyta, que era do Crac!, e fez a Nancytta e os Grazzers; Vandinho, da Úteros, fez o Vandex; o Inkoma deu Thiago Trad ao Cascadura e Graco ao Scambo; da Dois Sapos saiu Peu Souza, que fez história no rock brasileiro também”, explicou Fábio Cascadura.

A cena seguia tendo a Dr. Cascadura como a principal referência até que, em 2003, o fã do rock feito na Bahia que sintonizasse a MTV veria durante todo o dia quatro rostos bastantes conhecidos da cena: Joe Tromondo, ex-Dead Billies e Retrofoguetes, no baixo; Duda, ex-Lisergia, na bateria; Peu Souza (1977-2013), ex-Dois Sapos e Meio, na guitarra; e Pitty, antiga vocalista da Inkoma, liderando o quarteto.

“Continuei escrevendo e compondo e fui tentando aproveitar as coisas que me apareciam no caminho. Tentando manter a dignidade, e ao mesmo tempo dialogar para um público maior. Tentando não cair na armadilha das concessões, mas sabendo a hora de dizer ‘sim’”, contou Pitty.

Sem dúvidas, a cantora e compositora conseguiu dialogar com um público maior. “Admirável Chip Novo”, álbum de estreia da carreira solo de Pitty, vendeu cerca de 700 mil cópias e fez surgir a maior estrela do rock baiano desde Marcelo Nova, quase 20 anos depois da explosão do Camisa de Vênus.

Segundo a cantora, a afinidade foi responsável por ela ter se cercado de velhos conhecidos das bandas de Salvador nessa nova fase de carreira. “Além de músicos muito bons e capazes, havia o laço da afeição. E também vontade de dar uma força e ver mais gente da cena vivendo de música”, destacou Pitty. Passados 12 anos de sua estreia em carreira solo, Pitty lançou quatro álbuns de estúdio e seis DVDs. Hoje, não seria exagero afirmar que ela é a maior força do rock a surgir no novo século em todo o Brasil.

Foi também a partir dos anos 2000 que um fenômeno nas noites dos grandes centros brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro, começou a crescer em Salvador: as bandas cover. Antes já havia representantes do gênero, como a Beatles in Senna (cover dos Beatles), a Steel Maiden (cover Iron Maiden) e a King Cobra (cover de sucessos do metal e do hard rock), mas foram nos últimos 15 anos que a tendência se ampliou.

Atualmente é difícil encontrar um grande representante do Rock n’ Roll mundial que não tenha seu tributo baiano, como a banda Cavern Beatles, uma das mais atuantes da cidade nos dias de hoje. Esta realidade, apesar de estabelecida na cena, ainda causa muita polêmica entre os que não enxergam problemas nos grupos cover e os que acreditam que este tipo de trabalho toma o espaço de bandas autorais.

Para Rogério Bigbross, um dos mais famosos produtores culturais da cena rocker soteropolitana, os dois lados podem conviver em harmonia. “O cover sustenta muita banda autoral”, disse. Entretanto, ele destaca que os espaços que só investem nos covers correm perigo. “A casa não pode cair no vicio do cover, senão fica fadada a isso. A maioria das casas abriga os dois, com programação bem variada’, afirmou Rogério.

Fábio Cascadura é mais incisivo na defesa dos covers. “Cada um encontra seu espaço. Pôr a culpa do seu insucesso nas bandas covers só comprova a sua mediocridade. Quem é bom é bom até em Marte. E qualquer coisa tem o Caboclo no Campo Grande para a moçada chorar no pé”, disse.

“As bandas cover também cumprem um papel importante. Elas movimentam um público que, se não fosse por elas, não estaria ouvindo rock. Se as bandas autorais se juntarem com as bandas cover ao invés de se desgastarem com discussões vazias, todos ganham. Essa bobagem tem que acabar”, acrescentou Fábio.


Pitty não vê problemas nas bandas cover, mas confessa preferir os artistas com trabalho próprio. “Acho que cada um sabe do seu ‘corre’. Cada um sabe o que precisa fazer para sobreviver. Mas falando como artista, que também é público, acho mais instigante e desafiador presenciar uma manifestação autoral. Uma voz nova, que é única e inédita. Esses são os que acabam modificando as estruturas enquanto artistas”, afirma.

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